Formação de pós-graduandos: escolhas e a paciência dos passos certos
Nunca foi tão estressante ser estudante de pós-graduação no Brasil. A instabilidade e o baixo valor das bolsas, a incerteza do mercado e a cobrança por produtividade geram um ambiente de ansiedade que atinge até os mais vocacionados. Convivo há muitos anos com estudantes de pós-graduação e, a cada dia, percebo crescer entre eles a inquietação em relação ao futuro: Será que terei um emprego ao concluir o doutorado? Conseguirei uma bolsa de doutorado após terminar o mestrado? Essa ansiedade leva muitos a buscarem um emprego antes mesmo de concluir o doutorado, o que inevitavelmente compromete a realização do curso dentro do prazo estabelecido, aumentando a ansiedade. Meu conselho aos pós-graduandos é que mantenham o foco nos estudos e só pensem em trabalho após cumprir todas as etapas e requisitos para a defesa da tese. Nem sempre, porém, é isso que acontece, como ilustro a seguir.
Certa vez, em conversa com um estudante prestes a defender sua tese, ele lamentava o atraso na conclusão do curso. Por circunstâncias da vida, precisou assumir um cargo de professor substituto em uma universidade estadual, e isso acabou retardando seu trabalho. Quando me contou sobre a contratação, alertei-o de que certamente haveria impacto no andamento da tese. Ele, inexperiente e convicto, respondeu: “Serão poucas aulas, darei conta com tranquilidade.” Pela experiência, eu sabia que essa expectativa era ilusória. Há lições que só o tempo e a vivência permitem compreender. Ouvir os mais velhos pode ser uma forma de encurtar caminhos e evitar frustrações.
Pela experiência acumulada ao longo de mais de quatro décadas na academia, eu sabia que, junto com as aulas, viriam muitas outras atividades, pois a vida de professor não se resume à sala de aula: há reuniões, projetos de extensão e de pesquisa, atividades administrativas e muito mais. No caso dele, não foi diferente: envolveu-se em cursos de extensão e projetos da universidade, procurando sempre associar sua pesquisa a essas atividades.
Devemos entender que, uma vez tomada, uma decisão pode ser revista, mas o tempo não volta. Por isso, é preciso sempre olhar o lado positivo das oportunidades e caminhos escolhidos. Lembro-me de quando jovem, aos 21 anos, prestes a colar grau e me candidatar a um programa de pós-graduação, procurei um professor que muito respeitava em busca de conselho. Esperava dele uma orientação segura no sentido de confirmar meu desejo, mas sua sugestão foi que eu começasse a trabalhar e deixasse o mestrado para depois de acumular alguma experiência.
Embora não tenha seguido seu conselho, hoje vejo que, de certo ponto de vista, ele tinha razão: com mais experiência, o mestrado poderia ter sido feito com mais facilidade e foco. Por outro lado, se eu invertesse a ordem — fazendo primeiro o mestrado e depois trabalhar —, o aprendizado acadêmico me prepararia melhor para a prática profissional. Refleti sobre isso e decidi iniciar o mestrado aos 21 anos. Dezoito meses depois, fui aprovado em concurso para professor universitário, concorrendo com 22 candidatos. A experiência e o conhecimento adquiridos naquele período foram cruciais para a aprovação.
Relato esse episódio porque ele reflete a forma como vejo a vida: a experiência dos mais velhos sempre pode encurtar caminhos e facilitar decisões, mas cada um deve traçar o seu próprio. Uma vez feita a escolha, todo esforço e dedicação devem ser empreendidos para alcançar os resultados almejados. Não existe caminho fácil, e o mais curto nem sempre é o mais rápido: pode trazer obstáculos que atrasam a chegada. A vida é feita do que vivemos a cada dia, a cada instante, e o que não podemos é ficar parados. A falta de movimento é a morte em vida.
Voltando ao estudante — claramente ansioso —, cuja tese será defendida em breve, disse a ele que, a meu ver, o atraso trouxe aspectos negativos e positivos. Concluir o doutorado há um ano poderia ter aberto outras oportunidades. Por outro lado, a experiência como professor — o contato com alunos, a realização de minicursos, palestras e debates com colegas — contribuiu significativamente para seu amadurecimento. Quando se apresentar à banca, estará mais confiante e seguro, pois parte de suas propostas já foi testada em situações práticas. Trabalhou diretamente com temas relacionados à sua tese, ampliando ainda mais seu domínio sobre o assunto.
Assim, a proximidade da defesa, mesmo com pequeno atraso, não diminui o valor de sua trajetória. Ao contrário, sua segurança e autoridade na área se consolidaram por meio de cada experiência vivida.
Se há algo que aprendi, é que o tempo nunca se perde: ele se transforma. O atraso que pode parecer um obstáculo converte-se em maturidade, a demora em segurança, a experiência em sabedoria. Cada escolha tem seu preço, mas também seu fruto. Ainda que os conselhos dos mais velhos sejam bússolas preciosas, nossa travessia é pessoal, e cabe a cada um de nós tomar a decisão final sobre o caminho a seguir. E, quando olharmos para trás, perceberemos que não foi a pressa que nos fez crescer, mas a paciência de cada passo dado — e é ela que, no fim, nos ensina o verdadeiro sentido do tempo.
Luiz Cláudio de Almeida Barbosa
Professor Titular de Química – UFMG
E-mail: lcab@outlook.com
Belo Horizonte, 4 de novembro de 2025



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