Agroecologia, plantas medicinais e o futuro da saúde no Brasil

Biodiversidade, saberes tradicionais e os desafios da saúde pública

Agroecologia, plantas medicinais e o futuro da saúde no Brasil

O uso de plantas para fins medicinais constitui uma tradição entre muitos povos, em todos os continentes, incluindo populações originárias no Brasil e em todas as Américas. Esse saber ancestral, associado ao tratamento de diversas condições de saúde, mantém grande relevância até os dias atuais. No entanto, com o desenvolvimento da indústria de fármacos sintéticos ao longo do século XX, grande parte desse conhecimento passou a ser desvalorizada, o que traz o risco de perda de importantes medicamentos de origem natural.

Visando contribuir para a preservação dessa rica fonte de saberes ancestrais, pesquisadores brasileiros têm se dedicado ao estudo e à conservação de plantas medicinais oriundas da biodiversidade nacional. Como exemplo desses esforços, um artigo recente publicado na Revista Brasileira de Agroecologia, assinado pela professora Maria das Graças Lins Brandão — uma das mais reconhecidas especialistas brasileiras na área — e colaboradores, lança luz sobre um paradoxo persistente: embora o Brasil concentre a maior diversidade vegetal do planeta, ainda aproveita muito pouco esse patrimônio genético no desenvolvimento de medicamentos e na formulação de políticas públicas de saúde.

Os autores mostram que, até meados do século XX, plantas medicinais nativas eram amplamente utilizadas tanto pela população quanto pela indústria farmacêutica nacional. Espécies como guaco, maracujá, espinheira-santa, barbatimão e quebra-pedra, familiares a muitos brasileiros, figuravam em antigas edições da Farmacopeia Brasileira e integravam a produção de medicamentos industrializados. Esse cenário começou a mudar com a industrialização acelerada, o desmatamento, a urbanização e a crescente influência do setor farmacêutico internacional. Como consequência, saberes tradicionais foram desvalorizados, e o país passou a depender cada vez mais de espécies exóticas e de insumos importados.

Um dos pontos centrais do estudo realizado por esses autores é o levantamento de 27 espécies medicinais nativas que tiveram uso industrial no Brasil até 1995. Muitas delas ocorrem em biomas hoje ameaçados, como a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga, e algumas estão oficialmente classificadas em risco de extinção. Apesar do uso prolongado e da eficácia historicamente reconhecida, a maioria dessas plantas não conta atualmente com fitoterápicos registrados no país.

A regulamentação dos fitoterápicos no Brasil teve um marco em 1995, quando o Ministério da Saúde passou a exigir a comprovação de eficácia, segurança e qualidade, em consonância com orientações da Organização Mundial da Saúde. A iniciativa buscava viabilizar a transformação de plantas medicinais brasileiras em medicamentos de maior valor agregado, mas o resultado esperado não se concretizou. O desenvolvimento e a produção desses medicamentos revelaram-se processos longos e custosos e, passados trinta anos da portaria, poucas espécies nativas alcançaram registro e relevância comercial. A erva-baleeira constitui um dos raros exemplos de sucesso, ao dar origem ao anti-inflamatório Acheflan®, desenvolvido por um laboratório nacional.

Em função desse insucesso, a partir de 2014 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a reconhecer os chamados Produtos Fitoterápicos Tradicionais, cuja eficácia pode ser comprovada pelo uso contínuo ao longo do tempo. Novamente, a medida acabou produzindo um efeito indesejado, ao beneficiar sobretudo plantas exóticas e importadas, em detrimento de espécies brasileiras com amplo histórico de uso, que permanecem à margem das políticas públicas.

Nesse contexto, a agroecologia é apresentada como eixo estruturante da produção de fitoterápicos. Mais do que um modelo produtivo, ela articula ciência, conservação ambiental e conhecimentos populares. É nesse ponto que o papel dos profissionais da agricultura — em especial agrônomos e técnicos agrícolas — torna-se central. São eles que desenvolvem, testam e adaptam técnicas de cultivo sustentável, manejo agroecológico e sistemas agroflorestais, fundamentais para garantir produtividade, qualidade da matéria-prima e conservação dos ecossistemas.

Considerando que a produção desse tipo de insumo é uma atividade multidisciplinar, cabe destacar que o Brasil dispõe hoje de competência científica bem estabelecida e de uma tradição sólida em Química de Produtos Naturais, Farmacognosia e Etnofarmacologia, com lideranças reconhecidas internacionalmente. Pesquisadores dessas áreas estão presentes em todos os estados da federação. Em Minas Gerais, por exemplo, diversas universidades mantêm tradição consolidada de pesquisa nesses campos. Soma-se a isso a experiência acumulada de agrônomos, extensionistas rurais e agricultores familiares no desenvolvimento de sistemas produtivos adaptados às condições locais. Ainda assim, essa capacidade instalada segue subaproveitada quando se trata de transformar biodiversidade em inovação farmacêutica, políticas públicas e benefícios diretos à população.

Valorizar pesquisas nessa área significa reconhecer que a biodiversidade não é apenas um recurso natural, mas um ativo científico, agrícola, cultural e estratégico. Significa também integrar a ciência do laboratório à ciência do campo, fortalecendo a soberania sanitária, a agricultura familiar e a bioeconomia nacional.

Ao dialogar com experiências internacionais, como a medicina tradicional chinesa, o estudo revela que o Brasil ainda explora muito pouco aquilo que brota em seu próprio território. Em regiões como a nossa, onde a relação entre população, campo e floresta permanece viva, a agroecologia e o cultivo de plantas medicinais representam não apenas uma alternativa produtiva, mas também uma forma de preservar saberes, gerar renda e cuidar da saúde de maneira enraizada no lugar.

Valorizar plantas nativas e sistemas agroecológicos é reconhecer o papel de agricultores familiares, técnicos agrícolas, agrônomos e comunidades locais como protagonistas desse processo. Mais do que resgatar práticas do passado, trata-se de projetar um futuro em que biodiversidade, trabalho no campo e bem-estar coletivo caminhem juntos — um debate que precisa ganhar espaço também nas pautas regionais e nas decisões que moldam o desenvolvimento local.

Para saber mais: BRANDÃO, Maria das Graças Lins et al. Agroecologia como instrumento para o avanço dos fitoterápicos no Brasil. Revista Brasileira de Agroecologia, v. 21, n. 1, 2026.[AQUI]

Luiz Claudio de Almeida Barbosa, PhD

Prof. Titular de Química – UFMG

E-mail: lcab@outlook.com

Belo Horizonte, 2 de fevereiro de 2026