Centenário de uma mulher guerreira
Por padre Paulo Dione Quintão
No dia 25 de julho de 1925, nasceu minha mãe, numa fazenda nas proximidades do distrito de Padre Fialho, popularmente conhecido como Garimpo, no município de Matipó. Na pia batismal, recebeu o nome de Ambrosina Mendes Quintão, mas, por desejo de Jovelina Mendes Bastos, ainda bebê, ficou carinhosamente conhecida como Zita.
Uma mulher guerreira que deixou como marca registrada a ternura transbordante de uma alegria inerente ao seu perfil. Aproximava-se o dia 2 de novembro de 2010. Na véspera, despedi-me dela no Hospital Life Center, em Belo Horizonte, com a premonição de que ela partiria exatamente no Dia de Finados. Suas forças estavam poucas e, por assim dizer, querendo nos poupar de acumular datas fúnebres, ela escolheria aquele dia do calendário para completar sua jornada nesta existência.
Regressei à Paróquia com o coração partido por tê-la visto tão meiga como sempre foi — agora se apagando como um luzeiro de paz e altruísmo. Presidi a missa das 15 horas no exato momento em que ela falecia:
“Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Só me falta agora receber a coroa indestrutível da glória eterna.” (2 Tm 4,7s)
Os Céus tinham me contado. Alguém depois me disse:
– Eu estava naquela missa e percebi que você a entregou no Coração Eucarístico de Jesus!
Com 85 anos, na sagrada hora nona — 15 horas — do alto da cruz de seu Calvário, Ambrosina Mendes Quintão, a nossa Mãe Zita, adormeceu em Cristo.
Hoje, a saudade se tornou memória agradecida, cheia de conforto espiritual. Conservo, com gratidão, seu exemplo e inúmeras lições de vida. Por meio de sólida formação cristã, deu tudo de si para fazer do nosso lar um verdadeiro santuário da vida. Ao lado de papai, aquela costureira — tão prendada também nas artes culinárias — abraçou com eficiente liderança a construção do patrimônio espiritual e material da nossa família.
Nos meses de sua internação hospitalar em Belo Horizonte, ela sempre dizia:
– Eu sou mãe de nove filhos, e um deles é padre!
Devota de Santa Rita de Cássia, desde minha infância a observei fazer da quinta-feira o dia da santa que foi modelo de filha, esposa, mãe e conselheira. Posso dizer, portanto, que nasci devoto de Santa Rita. Ser pároco onde Santa Rita é padroeira da cidade e do município me faz cultivar essa memória agradecida da minha mãe, que me transmitiu — até por osmose — essa afinidade espiritual que tanto me auxilia no caminho da santidade.
Mais um legado de Mãe Zita eu confirmei ao conhecer Floripes Dornelas de Jesus, a Lola, em Rio Pomba — uma apóstola do Sagrado Coração de Jesus. Posso testemunhar que mamãe ingressou cedo nas fileiras do Apostolado da Oração, e me fez entender a expressão da Lola:
“A fita do Apostolado da Oração é vermelha porque representa o amor do Coração de Jesus por todos nós.”
De fato, até o final de seus dias entre nós, mamãe nunca se esquecia de celebrar as primeiras sextas-feiras de cada mês. Por vezes, ela me perguntava:
– Você não se esqueceu de que hoje é primeira sexta-feira, não, não é?
Buscou a Deus de coração sincero e reto, deixando-nos um indelével legado. Seu sepultamento parecia uma festa — a Festa da Ressurreição — naquela tarde chuvosa em que os Céus choravam a partida de uma mãe inigualável.
Concelebrei a Santa Missa Exequial ao lado de Dom Geraldo Lyrio Rocha, que a presidiu com mais de 30 sacerdotes. O compadecimento de seus amigos, dos amigos de seus filhos e dos familiares fez daquela tarde, em Abre Campo, um verdadeiro tributo à serva bondosa e fiel que entrou no repouso do seu Senhor.
Sua Páscoa foi um bálsamo que curou as feridas daquela perda e trouxe o perfume do Ressuscitado no testemunho de Mãe Zita — vida de nossa vida.
Por isso, podemos celebrar com júbilo o centenário de uma mulher guerreira.
Publicado na edição 3.385 de 24/07/2025



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